O que você está procurando?

AMO ter um blog de viagens. Me divirto enquanto escrevo sobre as minhas experiências por aí. Escolho com calma cada adjetivo que melhor descreva os lugares que visitei, me entretenho selecionando as fotos para ilustrar meus relatos, pensando no melhor modo de expressar o que foi a viagem para mim, de modo que quem quer que leia consiga pegar o espírito da coisa.

Mas tem algo que é quase tão divertido quanto escrever: administrar o blog. Todos os dias, eu entro no painel do administrador e observo as visitas, comentários, curtidas, etc. Mas o que mais me diverte é olhar os termos de busca. O que é que as pessoas digitam nos sites de busca, que as direciona para o meu blog? Quais são os termos relacionados às coisas que eu escrevo? Tem cada coisa que vocês nem imaginam.

A busca mais frequente da galera que visita o blog está relacionada à Grécia. O TOP 10 dos termos está todo ocupado por frases variadas, formadas pelas combinações das palavras “viagem”, “Grécia” e “dicas”. Quanto custa uma viagem para a Grécia?. Essa é a número um. Também tem algumas aleatórias de Londres, como castelo em londres com flores vermelhas (??? nunca escrevi sobre isso), ou “OVELHINHA NA LONDON EYE”. Qual seria o objetivo dessa última busca?

Outra coisa que faz bombar o tráfego lá no blog é a tal da maconha em Amsterdam. Todos os dias, sempre tem ao menos três buscas relacionadas ao tema. SEMPRE. E essas são as mais divertidas. “cogumelo amsterda proibido”.”gramas andar na rua amdterdam maconha”. “tipos de maconha em amsterdam”. “embarcar com semente em amsterdam”. “best space cake in amsterdam onde comprar?”. “aeroporto maconha amsterdam”.”QUAL MACONHA FUMAR EM AMSTERDA”. “space cake amsterdã na bagagem” (nãoo, por favor, gente!). Tem muuitas outras dessas, a lista é gigantesca. Um BEIJO para os maconheiros! Amo vcs. Não levem maconha para o aeroporto ❤

A terra prometida.
A terra prometida.

Tem os tarados de hostel, que alegram meus dias com perguntas do tipo “posso andar de cueca ao dividir um quarto”, “nos hostels as pessoas trocam de roupa”, “lavar cueca en hotel europa pode”, “hostel porto podem fazer sexo”. Tem também o pessoal macabro e suas curiosidades: “historias de pessoas que se jogaram da torre eiffel” e “nigeriano que foi enterrado com mulher e dinheiro”.

Algumas perguntas que eu, infelizmente, não sei responder, a exemplo de “como fazer ticket para igreja de vendas de lanches” ou “pqo bonde da maravilha estao dancando de short e legg”. Questiono os critérios do pessoal do Google, quando me são direcionadas buscas do tipo “coisas zuadentas feita de garrafas”, “parque dos minion”, “cadeiras gigantes para que adultos parecam criancas”, “O MENINO EA MENINA URINANDO EM BRUXELAS”. Sério, qual o critério?

Cadê o senso?
Cadê o senso?

Independente de quais foram os termos de pesquisa que te levaram ao meu blog, gostaria de frisar que este é um ambiente familiar e de muito respeito. Mas se você está indo lá só pela maconha, vá direto a este post. De nada.

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O que você está procurando?

Humor de Praia

Dizem que a gente vive 70% do tempo presos ao passado, 25% pensando em coisas do futuro, e somente 5% no presente. Sei não, soa meio exagerado. De fato, muitas vezes acabamos não vivendo cada momento do modo como deveríamos, mas cinco por cento me parece muito pouco. Não sou de acreditar muito nessas “pesquisas”. Acho que, talvez, uns 30% no presente seja mais próximo da realidade. Ainda assim, é pouco. Pouquíssimo. Quer dizer que vivemos muito mais da metade do nosso tempo remoendo o que já passou, ou fazendo projeções futuras.

Mas, se tem uma coisa que me faz ficar bem ligada no presente, essa coisa é praia. Desde pequena, ir à praia é minha paixão. Tô pisando na areia? Tem um mar na minha frente? Tô de biquíni? Tô feliz. A praia pode estar vazia, pode estar cheia, silenciosa ou zuadenta, não me importo. Pode estar tudo nublado, pode fazer frio ou aquele calor dos infernos, nem quero saber. Eu quero é estar na praia, esticada na canga, o sol queimando na pele, o cabelo todo embolado, os dedos sujos de dendê do acarajé.

A alegria da praia já começa em casa, quando sou acordada, não pelo despertador, mas pela claridade absurda que o sol faz no meu quarto. Levantar da cama no sábado é tarefa fácil. Aí vem o café da manhã pré-praia: cuscuz. Mas tem que ser aquele pratão de respeito, já que o próximo lanche será um picolé e o almoço, um queijinho qualho. Aí vem a parte do biquini. Tenho biquinis “de gorda” e “de magra”. Minha margem de erro de peso é de 2,5kg para mais, ou para menos, então é bom ter opções de tamanhos variados. Posso deixar de ir à praia por estar doente, ou em semana de provas, ou muito atarefada, mas, nunca, por estar cheinha demais ou de menos. Meu corpo sempre merece o agrado de pegar um bronze nos finais de semana.

Visto um short, calço um chinelo véio e tô pronta. Não precisa combinar roupa, não precisa maquiagem, nem perfume. Pentear o cabelo antes da praia tem utilidade zero. O único trabalho é passar o protetor. Uso protetor solar igual a criança, me cubro toda. Se deixar, passo até no sovaco. Tenho medo de ficar com a pele velha, e gosto do cheiro. Já saio de casa no clima. Dirijo descalça, com as janelas bem abertas e minha playlist bombando no som. No caminho, vários concorrentes de “sonzão” emparelham por uns segundos e vão-se embora. Quem é essa doida, ouvindo Amy Winehouse como se fosse pagode?

Chego na praia. Desligo do mundo. Minha única preocupação da vida, agora, é encontrar o meu pedaço de areia e estender minha canga. De preferência, perto do mar. Me mudo quantas vezes for preciso, quando a maré vai me empurrando. Já perdi chinelo no mar. Já voltei pra casa com o som do carro e o pen drive apagados de água e areia, e da última vez, vocês sabem bem o que aconteceu…

Arrumei um lugar legal pra me instalar. Pronto, cadê meu côco? Praia é um programa bom e barato. É de graça, você só gasta dinheiro se quiser. Quando dá, levo meus lanches na bolsa. Se não der, os gastos ainda são mínimos. Com 15 reais, eu faço misérias. Já foi muito mais em conta, verdade, mas ainda vale muito a pena. Com a mesma quantidade de dinheiro, num shopping, você não é nada.

Deitar de barriga para cima. Ajeitar as alças do biquini para que a marquinha fique certa. Deixar que o sol faça todo o trabalho sozinho. Esperar. Relaxar. Ouvir o som das ondas do mar, do arrocha lá longe, do “chegoooou o picolé, picolé!”, dos pais, gritando para os filhos não irem muito pro fundo. Dar um mergulho no mar, pra esfriar o corpo. A água do mar de Salvador tem a temperatura perfeita. Um meio termo entre o refrescante e o confortável, que dá vontade de ficar, ficando. Voltar para a canga. Dessa vez, barriga para baixo. Ás vezes penso na vida, ás vezes durmo, ás vezes sou acordada por chicotadas de areia do chinelo dos outros. Levanto meio chateada. Mas é uma chateação leve, menor que uma picada de mosquito.

Tudo isso pode ser resumido em um verbo: “Praiar”. O ato de ir à praia e demorar-se. Serve como terapia e tira mau-olhado. Cura estresse, ativa a vitamina D e clareia os pêlos do corpo naturalmente. Pode ser praticado por qualquer pessoa, preferencialmente, antes das 10h ou depois das 14h (quem prefere o horário menos recomendado, levanta a mão \o). É democrático e não tem espaço para a inibição. Todos estão igualmente expostos, não tem porque ficar com vergonha.

Como não amar? Não existe programa melhor nesse mundo. Nos finais de semana, passo longe dos shoppings. Meu negócio é praia. Sempre que posso, praio.

Bem na vida.
Bem na vida.
Humor de Praia

Antes muito, muito tarde do que nunca.

Sou a dinossaura das redes sociais. Sempre fui uma das últimas a tentar usar as novidades que surgem. Acho que demorei mais de um ano ouvindo minhas amiguinhas me mandarem fazer um Orkut, pra poder participar das conversas quando elas falavam sobre as comunidades, ou sobre quem estava no topo dos seus depoimentos, ou sobre quem visitou ou deixou de visitar o perfil delas e eu ficava tipo, hã?? Inclusive, quando finalmente entrei para o mundo das redes sociais, foi porque uma delas resolveu “acabar logo com isso” e criar um perfil para mim. Fez o cadastro, preencheu todo o “quem sou eu”, colocou foto e me deu o login e a senha. Tão gentil.

Fui a última a ter um computador com internet em casa. Quando baixou a febre dos smartphones, fui uma das últimas a comprar. E só comprei porque estava morando fora e lá era bem mais barato. Demorei séculos para entender que o Orkut já tinha afundado, que era a hora de ir embora, pois só tinha “povão”. A nova moda era o Facebook. Poxa vida, calmaí, gente, logo agora que eu estava no fim da minha fase de adaptação.

Até hoje não sei muito bem como gerenciar minhas conversas no Whatsapp. Visualizar e não responder é o meu normal. Na minha cabeça, é tipo SMS ainda. Eu olho, recebo a mensagem e vou fazer outras coisas enquanto penso na resposta, que fica pra mais tarde. Meus amigos já aceitaram isso e entendem sem reclamar. Quem quiser ter uma conversa contínua, tem que tocar a campainha aqui de casa, ou marcar uma praia, já que eu também não gosto de falar no telefone.

Certa vez, estava de “paquera” com um carinha, e descobri que ele era tipo eu nessas questões. Maravilha. Achei ótimo. Compatibilidade total quando a gente se batia e ficava de conversinha. Mas aí, quando a gente não se encontrava, funcionava mais ou menos assim: Ás sete da manhã, ele me mandava um “bom dia” (quando a pessoa manda bom dia, é porque tem coisa), mas nesse horário eu estava na correria de me arrumar para o estágio, e acabava não vendo. Aí, lá pelas 10h eu parava pra lanchar, e dava uma olhada. “Oh que fofo!”. Mandava um “bom dia”, e uma carinha sorrindo. Ele me respondia às 17h, dizendo que “agora já é boa tarde”. Risos. Eu visualizava às 22h, quando chegava da faculdade, e dava “boa noite”. Ás sete da manhã ele me dava “bom dia”… Nunca deu em nada.

Me lembro do dia em que, acidentalmente, cliquei na legenda da foto de alguém do Instagram e caí em uma página cheia de fotos com temas relacionados. Tinha descoberto a funcionalidade das hashtags, que tanto me causavam estranheza. Passei a amar o Insta. Tão prático, tão simples. Comecei a seguir várias mulheres fitness pra pegar dicas de como ficar saradona. Não sei pra quê. Depois tive o trabalho de sair dando “unfollow” em cada uma delas. Comecei a ficar agoniada. Estavam o tempo todo de top e short colado, fazendo agachamentos e abdominais. Me sentia a maior preguiçosa do mundo.

O Tinder bombou quando eu ainda estava namorando. Honestamente, acho que mesmo solteira, não teria usado, apesar de não recriminar as amigas que usaram e tiraram bom proveito do negócio. E se eu fosse usar, provavelmente chegaria atrasada, como sempre, e já pegaria a fase decadente, quando a coisa ficou baixo astral. O Twitter pra mim, é o grande mistério da internet. Já tive um, mas deletei. Nunca consegui entender como era o esquema, quem poderia ler minhas coisas, o que que eu poderia de falar de interessante em 144 caracteres. Já viram os tamanhos dos meus textos? Não sou muito de falar, mas escrevendo, sou a maior tagarela.

Fiz um snapchat em 2013 e só fui aprender a usar em 2015. Tentava mandar foto de uma espinha na cara pra uma amiga, clicava em um quadradinho, quando ia ver, tava exposto pra todo mundo. Aimeudeus, como apaga? Tentava e não conseguia. Não tem nada escrito, só quadrados e bolas e um fantasma. Ah, dane-se. Ainda bem que descobri assim, mandando foto de espinha e não de coisa pior.

Quero saber qual será a próxima novidade, pessoal da internet. Nunca mais vi novidades nas redes sociais. Tô ligada aqui, só esperando qual será a próxima que vou demorar seis meses pra procurar me inscrever ou baixar o app. “Bring it on, bitches!”

Antes muito, muito tarde do que nunca.

Agosto

No início desse mês, eu tirei férias do estágio e da faculdade. Decidi fazer algo útil com meu tempo livre e comecei a escrever nesse blog. Iniciei um propósito de escrever um post todos os dias, um para cada dia do mês. Aqui estou eu, no dia 31, escrevendo meu trigésimo primeiro post desse mês.

No começo de agosto, eu tirei todo o dinheiro que tinha em minha conta bancária e poupança, consegui mais 50 reais vendendo um freezer para minha mãe na OLX e usei esse dinheiro para me divertir. No primeiro sábado do mês, eu iniciei minha primeira viagem sozinha. Passei uma semana no Rio, visitei lugares incríveis, fiz trilhas, conheci pessoas novas e reencontrei uma amiga querida. Depois fui para Curitiba, passei 4 dias com minha irmã, comi muito hamburguer, passeei pelos parques e visitei exposições.

Na metade do mês, eu estava semi-falida e tive que comprar um celular novo. Como consequência, fiquei naquela situação “muito tempo livre, muita energia e zero dinheiros”. Gastei mais tempo lendo livros, pesquisando coisas, assistindo filmes esquisitos e andando por aí. Fiz uma lista das coisas que quero fazer antes do meu próximo aniversário. Fiz uma aula de Yoga. Suspendi a dieta. Organizei meu quarto. Pensei na vida.

Última semana de agosto. Última semana de férias. Passei a dormir até as 11h da manhã. E tirar uma sonequinha depois do almoço. Bati meu recorde de sono. Estou acumulando reservas para quando a rotina voltar a ficar agitada. Na verdade, acho que eu só estou entediada mesmo. Comecei a assistir The Middle desde a primeira temporada. Escrevi no meu blog de viagens.

Agosto passou rápido, mas foi bem aproveitado. Ganhei experiências, aprendizados, novos hábitos e 3kg a mais. Descobri que é legal me aventurar sozinha e curtir minha própria companhia. Fiquei mais reflexiva, aprendi a tirar lições das pequenas coisas da vida. Desenvolvi novos talentos. Descobri meu modo de escrever.

Agosto

Quer mimar seu filho? Dê um pônei a ele.

Sempre achei muito chato quando ouvia alguém falando das gerações que sucederam à sua como sendo algo inferior. As atitudes e o modo de pensar mudam significativamente de uma geração para outra. Algumas coisas se perdem, outras são adquiridas, mas, no balanço total, será que não fica tudo a mesma coisa? Falando da minha geração, em relação à dos meus pais, acredito que nós somos mais inteligentes, mais questionadores e muitíssimo mais apressados e imediatistas. Nisso aí, o que é aspecto positivo ou negativo fica a critério de cada um, mas, honestamente, gosto do jeito como tocamos a vida hoje em dia. Acho que “estamos fazendo isso certo”. Não somos uma geração perdida.

Ah, mas as crianças de hoje em dia…

Primeiramente, é um pouco confuso definir quando começa uma geração e termina outra. Depois que uma parte dos meus amigos já começou a ter filhos, eu já posso considerar as crianças de hoje em dia como uma geração separada da minha, certo? Por favor, me digam que sim, pois eu realmente acho que tá tudo errado com eles, risos.

A sensação que tenho é de que eles saem atropelando tudo. Não tem mais a separação das fases da infância/adolescência. Primeiro a fase de brincar com os coleguinhas. Depois a fase de meninas terem nojo dos meninos e vice-versa. Depois a fase da curiosidade da anatomia humana. Depois a fase de se revoltar sem motivo. Depois a fase de estudar pra não ficar de recuperação. Depois a crise do que fazer no vestibular. E por aí vai, mais ou menos organizadamente, com alguns períodos confusos nas interseções entre duas fases consecutivas. Era assim que funcionava, mas agora tá tudo embolado.

Ao mesmo tempo que as meninas brincam de Barbie, já conversam com os paqueras pelo smartphone, já tem acesso a todo tipo de informação através da internet, já misturam refri com um pouco de vodka, já falam de sexo nas redes sociais… Calmaí, galera. Vocês vão ter direito a tudo isso aí, mas cada coisa no seu tempo. Só acho que se as coisas continuarem evoluindo dessa maneira, vai dar merda lá na frente.

Longe de mim ser conservadora, mas eu penso que no período da vida no qual a pessoa está construindo seu caráter e se descobrindo como indivíduo, é bom ela vivenciar cada etapa com calma. Agora, como que isso vai acontecer, quando os pais entregam logo um Ipad para uma criança de um ano, porque isso ajuda ela a ficar quieta? Ou dão um smartphone para um menino de 8 anos e depois reclamam quando ele fica no whatsapp durante as aulas? Gastem tempo com seus filhos. Botem essas crianças pra se sujarem na rua.

Sou frequentadora assídua da pracinha que tem aqui perto de casa. Às vezes vou lá só pra tomar uma água de coco. Na maioria das vezes, vou pra correr. Só não pode ser no domingo, porque aí fica cheio de crianças e tudo o que elas atraem: pula-pula, cama elástica, carrinho de algodão doce, pônei. Mas…Pônei?? Sim, hoje tinha nada mais, nada menos do que um pai conduzindo uma menina mega feliz em cima de um pônei. Achei aquilo o máximo. É a descrição perfeita de como mimar uma criança, mas é legal.

Qual a relação entre a minha linha de pensamento inicial e o pônei? Só que é muito mais fácil mimar seu filho dando a ele um IPhone, quando ele ainda está sendo alfabetizado, só pra ele parar de encher o saco. Mas, e aí, será que isso vai fazer bem pra ele? Não tô dizendo pra você criar um mini cavalo dentro do seu apartamento, mas, sim, pra “perder tempo” com seu filho. Faça o que é trabalhoso, pelo bem das crianças. Não vamos apressá-los rumo ao fantástico mundo da tecnologia. Pode ser que isso esteja estragando essa geração.

Quer mimar seu filho? Dê um pônei a ele.

Dá Licença?

Acabo de chegar em casa. Estava no bar com minhas amigas, conversando, contando as novidades, olhando a vida dos outros, etc. Quando chegamos, o lugar já estava cheio. Noite de sábado. Não foi fácil arrumar uma mesa do lado de fora, ao ar livre, mas nós tivemos paciência, conversamos com um e com outro, aguardamos a oportunidade e conseguimos. Éramos três meninas em uma mesa para quatro.

Estávamos lá, na nossa mesa, curtindo nossa companhia e o som da banda, quando, de repente, um senhor idoso puxou uma das cadeiras e se sentou ao nosso lado, bêbado mais que tudo, trazendo na mão sua roska de siriguela. Olhamos uma para a outra, constrangidas. Como agir?

No estado em que ele estava, não conseguimos explicar que aquela mesa não era dele, e pedir pra ele se retirar. Chamei o gerente, que já veio rindo. “Moço, esse senhor não quer sair da nossa mesa. Tem como dar um jeito nisso?”. Ele cutucou o velho, que estava bêbado, mas percebendo tudo, e cochichou algo em seu ouvido. Ele se virou pra nós e disse, em tom de deboche, que quando o dono da cadeira chegasse, ele sairia. O gerente fez uma cara de consternação e se retirou.

Simples assim. O velho ia ficar por ali mesmo, atrapalhando nossa noite e ponto. A menos que abdicássemos do direito de usar a NOSSA MESA, e fôssemos nos sentar lá na área de dentro. Quanto desaforo.

Não parou por aí. Ciente de que estávamos tentando expulsá-lo dali, ele deu tapa na mesa, xingou baixo, falou coisa, disse que ” quem mandava naquela porra era ele “, e ficou encarando.

Nessa hora, qual o único pensamento que veio à minha mente? “Se fossem três caras aqui, duvido que esse velho iria se atrever a puxar a cadeira”. E essa era a verdade. Estávamos ali, à mercê do bom senso alheio, por sermos mulheres e fazermos parte do sexo frágil.

Quantas vezes temos que passar por situações como essa em nossas vidas? Quando não é um velho bêbado tapado, é um professor que gosta de fazer piadinhas machistas no meio da aula, ou aquele cara da empresa, que gosta de fazer carinho no seu braço enquanto conversa, ou aqueles homens da balada, que chegam querendo um beijo seu e não vão embora nunca, ou aquele colega de sala, que senta na sua frente e fica olhando pra trás toda hora, puxando conversa e tentando chamar sua atenção a qualquer custo.

Porque o mundo precisa se mostrar tão hostil e sufocante em relação ao sexo feminino? Estamos cansadas de homens que impõem sua presença. Cara, se não lhe foi direcionado nenhum sinal, nenhum convite, aprende a ficar na sua. Por favor, não comenta em todas as minhas fotos no facebook. Não pega o meu número no grupo do Whatsapp, e depois vem encher o meu saco com mil mensagens. Não vem me puxando pelo braço, no meio da festa, pensando que eu estou bêbada demais para reagir, tentando tirar uma lasquinha da situação. Simplesmente, dê licença.

Não se conquista mulher por insistência. Dá pra notar quando ela não tá afim de conversa. Respeite o espaço dela. Não queira ser um incômodo na vida de alguém. Saiba ser tratado com educação e devolver o tratamento sem acanhar ou constranger ninguém. Para de reclamar do quanto as mulheres são metidas, quando você é que não aceita ser dispensado. Nos trata de igual para igual. Não seja essa massa de hormônios ambulante, que precisa se satisfazer a qualquer custo. Você é um ser racional, você é melhor que isso.

No fim das contas, o velho se levantou da nossa mesa, por vontade própria, e foi sentar junto de outras meninas. Na mesma hora, elas chamaram o gerente. Mesma coisa. Não demorou muito, elas se levantaram e trocaram de mesa. O que mais poderiam fazer?

Dá Licença?

As Maidentrips da vida da gente

Passar por essa fase dos 20 e tantos anos é tipo velejar sozinha. Ás vezes é divertido. Na maioria das vezes é trabalhoso e dá medo. Para alguns é mais tranquilo, para outros nem tanto. Uns tem mais apoio, uns são obrigados a fazer tudo sozinhos, outros se viram sozinhos por opção própria. Pra mim, essa tem sido a parte mais emocionante e doida da minha existência. Sabe os altos e baixos da vida? Eles ganham uma amplitude muito maior, e são, tipo, um dia você tá lá no pico do everest, outro dia você tá nas fossas abissais.

Deixando o drama de lado, imagine-se velejando sozinha no sentido literal da coisa. Que pânico que deve ser ficar balançando dentro do barco, enquanto que tem uma tempestade foda comendo lá fora, e você vestindo uma roupinha especial, pois a qualquer momento você pode ser ejetada. Imagine ver seu barco enchendo de água por dentro, e tudo o que você pode fazer é esquecer do medo e ser racional. A vida tem dessas, mas imagine passar por isso de verdade, arriscando sua vida.

Em 2012, uma holandesa muito corajosa chamada Laura Dekker bateu o recorde de pessoa mais jovem a dar a volta ao mundo velejando sozinha. Ela tinha apenas 14 anos quando embarcou nessa viagem, bem documentada no filme Maidentrip (tem na Netflix, corre pra ver!), que é um conjunto de filmagens tipo um diário, em maior parte filmada pela própria Laura, dentro do barco.

Tudo começa quando ela ainda tem 13 anos e comunica ao pai sua decisão. Para ele, era só uma idéia maluca de criança, e bastava dizer a ela que “Ok, mas você vai ter que cuidar de tudo sozinha”. Aí ela fez o que ele disse, conseguiu apoio e patrocínios, e a coisa começou a ficar séria. Imagine aí, uma menina de 13 anos indo velejar em volta do mundo sem ajuda de ninguém!

Durante 519 dias, Laura passa por várias situações, vai amadurecendo e mudando seu modo de pensar, e tudo isso vai sendo retratado por ela mesma em seus desabafos, metade em holandês, metade em inglês. É interessante ouvir as reflexões dela que, inicialmente, são simples, de menina adolescente, mas depois vão “evoluindo”, e passam ao momento no qual ela até rejeita sua nacionalidade e decide mudar o final de sua rota, e não voltar para a Holanda (desculpem o spoiler).

Diante de tantas experiências e de tanta coisa bonita que ela vive, até o propósito de bater o recorde, que era o principal no começo, se torna muito pequeno, e a garota começa a questionar a importância disso.

De tudo, o mais legal é ver o quanto ela deseja ter alguma companhia no início da viagem, se apegando a um grupo de golfinhos que passeia em volta do barco, e depois se auto declarando filha de um casal de velejadores que ela conhece no caminho, e depois tudo muda, e nos poucos momentos que ela tem alguma companhia, ela sente como se fosse algo imposto, ficando até irritada, e tudo o que ela mais anseia é pela solidão de velejar sozinha.

Enquanto eu estava assistindo ao filme, minha irmã chegou do trabalho, deu uma espiada e disse que, obviamente, era tudo armação, e desacreditou da história totalmente. Ela não quis nem que eu voltasse ao início, ou colocasse legendas para ela entender. Tipo, haha, me poupe que essa pirralha vai conseguir velejar o mundo sozinha. Olha onde eu tô na vida, e eu tenho 30 anos, claro que é mentira. Só pode ser.

Pois bem, gostaria de recomendar Maidentrip para toda(o)s que lerem isso aqui. Principalmente, fica como sugestão para as meninas. Dá pra fazer várias analogias com as situações da nossa vida. Eu mesma passei o resto da tarde e a noite pensando e refletindo (nem gosto), e não tinha percebido o quanto que esse filme tão simples tinha me afetado, até que minha irmã voltou pra sala e perguntou se tava tudo bem comigo. Abri logo o wordpress e comecei a escrever.

Laura Dekker e seu barco, Guppy.
Laura Dekker e seu barco, Guppy.
As Maidentrips da vida da gente