TITS OUT

Não gosto das músicas da Miley Cyrus, mas gosto dela.

Looking so good
Looking so good

Uma notícia um tanto velha, nesse site chamado Sugar Scape, que eu nunca tinha visto na vida, me fez gostar da Miley Cyrus. Eu não gostava de quando ela era fantoche da Disney, naquela série com um senso de humor meio retardado, na qual ela colocava uma peruca morena ou loira e ficava irreconhecível. Não assisti aos filmes dela, nem ouvi suas músicas. Acho que o público dela sempre foi mais jovem que eu, apesar de termos a mesma idade, mais ou menos.

Maaaas, aí ela começou a ficar doida. Ao menos era o que eu pensava. Fiquei com pena, porque ela pelou o cabelo e ficou bizarra. Depois fiquei horrorizada com o que ela fazia nas apresentações dela, dançando de lingerie no palco, se esfregando nos outros, montando pelada em uma bola de ferro gigante, etc. Aí ela começou a aparecer em fotos com umas calçolas realmente cavadas, ou usando apenas adesivos nos mamilos. Eu só conseguia pensar no quão envergonhada essa menina estaria daqui a uns anos.

E aí hoje eu li essa reportagem, na qual ela é perguntada sobre o que o pai dela acha de toda essa exibição nua na mídia, e ela me veio com essa resposta que faz todo o sentido.

“…he’d rather me have my tits out and be a good person, than have a shirt on and be a bitch.”

Traduzindo, “ele prefere que eu mostre os peitos e seja uma boa pessoa, do que vestir uma blusa e ser uma vaca”.

Sei lá se o pai dela pensa mesmo isso ou não, mas a questão levantada na resposta dela é muito boa. Afinal, o que é motivo para se envergonhar, o tipo de roupa que você exibe, ou o tipo de pessoa que você é?

Outro dia uma amiga me disse que o namorado dela, enquanto a aconselhava sobre qual tipo de roupa ela deveria vestir, veio com uma breve explicação de como as garotas são classificadas em “para pegar” e “para namorar”, de acordo com o comprimento de suas saias. Juro pra vcs que ainda existe gente que pensa assim. À essa altura da modernidade.

1920's
1920’s
TITS OUT

Ambição de Hippie

Nunca fui uma pessoa muito ambiciosa. Não tenho vergonha de admitir ser do tipo que ama a zona de conforto mais do que tudo nessa vida. Tenho dificuldades de compreender o porquê de a nossa sociedade recriminar tanto quem vive na zona de conforto. Gente, sendo um lugar legal, seguro, onde você se sente extremamente bem e nenhuma surpresa vem pra atrapalhar seu bem estar, porque viver se esforçando pra sair de lá? A zona é de conforto. O próprio nome já diz. Não tem como ser ruim. É autoexplicativo. Não sei mais o que dizer.

O único momento no qual eu decido buscar novos horizontes e ir atrás de coisas novas, é quando fico entediada. Mas aí já deixou de ser confortável, certo? Quando a vida fica chata, aí eu corro atrás de alguma novidade, vou fazer algo diferente, me movimentar. Na real, eu só estou buscando ampliar a minha zona de conforto. Até ficar entediada novamente. O que eu quero, na verdade, é que a minha zona de conforto fique bem grandona e diversificada, para que eu possa ficar lá, de boa.

Já critiquei muito os hippies. Critico ainda, às vezes, porque acho que eles são muito pouco produtivos, e se todos fôssemos assim, não teríamos tanta tecnologia, medicina, organização, etc. Mas no fundo, no fundo, eu tenho uma invejinha deles. Gosto de ter uma vida mais ou menos organizada e higiênica, na medida do possível, gosto de ter uma graninha para comprar umas coisas legais, mas admiro o tanto de tempo livre que esse povo tem na vida. Ta aí uma ambição minha: Ter tempo livre.

Queria ter muito tempo livre. Queria tomar um café da manhã bem demorado todos os dias e depois sentar um pouco para assistir qualquer jornal. Queria chegar em casa cedo, colocar uma canga e um livro dentro da bolsa e ir curtir o fim de tarde na pracinha. Queria correr na orla todas as noites, depois tomar água de coco e ficar olhando a lua. Queria testar uma receita diferente todos os dias e assistir filmes estrangeiros. Queria fazer meu próprio iogurte.

De ambição material mesmo, só queria uma casa na praia. Pode ser simples e pequena, só precisa ser bem pertinho do mar. Se uma varanda estiver inclusa no pacote, gostaria de uma rede também.

Ambição de Hippie

“Quiter”

Um dia desses eu jurei para mim mesma que não ia mais ficar comendo besteiras em casa. Hoje queimei a língua porque não consegui aguentar o tempo do brigadeiro esfriar na panela. Um dia desses eu decidi que não gastaria dinheiro com bens não-duráveis. Ontem passei metade da manhã procurando um tênis de corrida novo no site da Centauro. Um dia desses fiz um pacto comigo mesma de manter o meu quarto organizado. Nesse fim de semana, passei a noite de sexta, o sábado e o domingo usando a mesma bermuda que tirei diretamente do varal, sem conseguir encontrar nada na bagunça do meu guarda-roupas.

Um dia desses eu decidi retomar o hábito de carregar sempre algum livro na bolsa e voltar a usar meus intervalos livres para ler mais dos autores que gosto. Ontem levei Cem Anos de Solidão comigo para a praia, e tive que recomeçar da primeira página, depois de um intervalo de quase um mês de iniciada a leitura. Um dia desses eu resolvi que seria mais prudente e paciente no trânsito. Essa semana briguei por vaga, xinguei, fui xingada e dei dedo pelo retrovisor do carro.

Passei um tempo esquecida de como era essa sensação de fracasso generalizado nas pequenas coisas. Sabe quando você parece não conseguir dar continuidade em nada na vida? De repente, me peguei em uma fase na qual eu nem quero mais fazer planos. Desculpem aí essa chuveirada de pessimismo, acho que fui picada pelo mosquitinho da depressão dominical. Uma boa semana pra vocês.

“Quiter”

Observadores de Praia

O ponto de ônibus do Porto da Barra é abrigado e tem assentos, mas está vazio. São 16h da tarde e umas quinze pessoas esperam por um ônibus. Apenas três estão sentadas, na sombra, onde há lugares vagos que ninguém parece querer ocupar. Já é verão em Salvador. A cidade começa a ficar quente, o sol brilha forte o dia todo e as núvens desapareceram. O mar calmo e claro convida a um mergulho e a praia está cheia. Todos estão debruçados na mureta, olhando o movimento lá em baixo.

A areia está tomada de gente. Cada um no seu pedacinho de canga. E eu lá em cima, suando e babando de inveja, de calça jeans, blusa preta e sapatilha, do estágio diretamente para a Barra. Ao meu lado, um homem vestindo um macacão azul e botas. Deve estar com mais calor que eu. O menino que está do meu outro lado nem pisca, de olho em duas meninas que estão estiradas, se bronzeando. De vez em quando, ele vira a cabeça, só para conferir se o ônibus que está passando não é o seu, então volta a observar as garotas. Olho na praia, olho no ônibus. Todos ali seguem esse ritual. Menos eu, que estou apenas esperando uns amigos. Combinamos de tirar a tarde para ficar “pela Barra”.

Duas gordinhas, ambas lá pela casa dos quarenta, tomam cerveja Schin no canudinho e riem tão alto que fico com vontade de participar da conversa. Elas também usam calças, mas parecem relaxadas e felizes. É uma tarde de sexta-feira, todo o trabalho da semana já foi feito. Um homem encerra sua corrida e se junta a nós, observadores de praia. Estica uma perna, depois a outra. Se alonga sem desviar os olhos da água. Li uma vez que esse fascínio do ser humano pelo mar, nada mais é do que “memória genética”. Acho que faz sentido.

Um casal com cara de turistas para em frente ao carrinho de água de coco e espera. Onde estaria o vendedor? Não demora muito e ele aparece. Adolescente, boné “pala reta” no topo da cabeça. Estava ali, do ladinho, observando também. Me lembro de quando a orla estava passando por uma grande reforma e vivia cheia de pedreiros, que se revezavam na observação. Era até engraçado olhar lá da areia e ver os capacetezinhos azuis enfileirados, voltados para a praia. Deve ser difícil ser produtivo com uma vista dessas.

E quem estaria me cobrando alguma produtividade? Não estou esperando ônibus, não estou vendendo coco, nem me exercitando ou tomando uma cervejinha de final de expediente. Estou pela Barra, observando. Só isso.

Praia do Porto, Salvador.
Praia do Porto da Barra, Salvador.
Observadores de Praia

32 % de gordura, morte súbita e pé podre.

Quinta feira é dia de correr, tá na minha planilha. Aí acordei com o pé doendo que só. Fui mancando de casa até o carro e do carro até o estágio. Me instalei na cadeira, e decidi ficar quietinha, pra não forçar o pé. Tinha até de noite para ficar boa. Só uma dorzinha de cansaço, passaria logo.

Estava numa boa no estágio, doing my job, quando recebo um email convidando para descer ao pátio para uma feira de saúde na empresa. Vários stands de laboratórios e clínicas da cidade, oferecendo serviços diversos, desde medição de pressão, teste de glicemia, teste de olho, massagem, etc. Nem estava considerando participar, mas aí um colega me chamou, falando do teste de bioimpedância, aquele de medir as gorduras. Opa, aí o interesse já muda… Desliguei o monitor e “bora”. Adoro me pesar, me medir, ficar por dentro do que tá acontecendo com meu corpo. Sou levemente paranóica com essas coisas. Frequentemente saio daqui de casa e ando até a farmácia mais próxima somente para conferir meu peso. Lá fui eu, me atualizar da minha situação adiposa.

Coloquei os polegares na maquininha e… Trinta e dois por cento. O rapaz do estande leu e ficou olhando para mim, sorrindo. “OI? Vinte e três, moço?”. Queria eu. Era três e três mesmo. Eu, com 55 kg, como que cabem mais de dezoito quilos de gordura aqui? Quase na margem da obesidade, segundo a tabela de nível de gordura aceitável para mulheres. Olhei pra ele, olhei para a cestinha de sonhos de valsa na mesa. Tristeza. Fiquei arrasada. Comi o chocolate. Fui para a fila de medir a pressão.

Minha pressão sanguínea não me desaponta. Meu normal é 9/6, então tô sempre tranquila. Vamos lá. A moça foi apertando o negócio no meu braço. “Tem hipertensão?”. Oxe, pensei, ela não estava ali justamente para medir isso?. Respondi que não. Tava mais pra hipotensão, do que hiper. Haha. Ela parou de encher a bombinha, olhou pra mim e disse “hipotensão leva à morte súbita”. Deixei cair o sorriso da cara. Affe. Dia difícil esse.

Depois dessa, quem ia medir glicemia mais? Estaria com diabetes, certeza. Nem fui no teste do olho, não queria descobrir glaucoma naquele dia. Me ofereceram um teste de resistência física. Sem condições, “hoje não, que meu pé está podre”. E continou podre até a hora de sair do estágio. Manquei do carro até a prateleira de leite condensado do mercado. Ei, universo, não estou afim de terminar o dia mal. Aguentei ficar em pé somente o tempo necessário para cozinhar o brigadeiro. Continuei minha sequência de The Middle (como as pessoas conseguem odiar, me digam?), prato de brigadeiro no colo, pé largado no sofá. Só tem dia ruim se eu quiser. O que é que não pode ser resolvido com brigadeiro?

32 % de gordura, morte súbita e pé podre.

Horas por Ano

Acho que tá na hora da sociedade parar de fazer cara feia pra roupa mal passada. Não se deve usar uma roupa vulgar em ambiente de trabalho, ok. Questão de bom senso. Não se deve sair de casa vestindo roupas sujas, ok. Questão de higiene. Mas, qual o problema de usar uma roupa amassadinha?

Todos os dias eu gasto uns 3 minutos passando ferro em alguma blusa antes de ir para o estágio. Se fizermos as contas, sabendo que o mês tem 20 dias úteis, e o ano tem 12 meses, dá até uma tristeza de saber que 720 minutos, ou 12 horas da minha vida, por ano, são perdidas passando ferro em roupas. E o pior é que, ainda que eu perca esse tempo, quando saio do carro, já tá tudo amassado de novo, ou seja.

O mesmo raciocínio é válido para forrar a cama depois de acordar. Seriam outros 2 minutos que eu perderia todo santo dia. Vejam bem, é muito melhor eu deixar o lençol no qual eu durmo aberto, arejado e tomando o sol que entra pela janela durante o dia, do que abafado sob um cobertor, criando ácaros. E é por isso que a minha cama só é forrada quando minha mãe aparece aqui em casa ou quando tenho visitas (mais para evitar que elas sentem com a bunda suja no lençol do que por motivos estéticos).

Sabe a técnica do “ombré hair”? Tem alguém por aí afora levando os créditos, mas fui eu que lancei a moda. Simplesmente, leva umas 3 HORAS para fazer umas mechas loiras no cabelo. Tem gente que faz a cada um ou dois meses, para não ficar aparecendo a raiz escura. Seriam 36 horas por ano sentada em uma cadeira, com papel alumínio embolado na cabeça. Sem condições. Dou um intervalo de, no mínimo, 6 meses. Finjo que é proposital e acho lindo. Economizo TRINTA horas por ano.

Fazer as unhas no salão de beleza? hahahahahaha…

Enxugar e guardar os pratos depois de lavar. Gente, pra quê? Existe um fenômeno físico chamado evaporação. É fantástico. E deixar os pratos na pia mesmo é muito mais prático. Não preciso ficar abaixando para procurar nada nos armários, os utensílios mais utilizados estão sempre na altura dos olhos, prontos para serem usados. Se vou colocar a mesa, a caneca já vai com garfo, colher e faca dentro. Economizo uns 5 minutos por dia. Ganho mais 30 horas/ano.

A lista de coisas que eu deixo de fazer pra não desperdiçar tempo é extensa. Somente com o que eu citei nesse post, já contabilizei 84 horas economizadas, ou 7 dias por ano. Já pensou em quanta coisa dá pra fazer com uma semana a mais de vida, todos os anos? Dá pra reassistir todas as temporadas de FRIENDS, dá pra ler um livro, organizar a vida, dormir até enjoar. Não é preguiça, é praticidade.

Horas por Ano

Saudades, ser Chique.

Ontem fui à despedida de uma amiga que está indo passar um ano em Liverpool. Falamos sobre a chegada na Inglaterra, as acomodações, as viagens que ela vai fazer, e aí começou a bater aquela saudadezona do intercâmbio. Mas é uma saudade boa, de saber que eu tenho tantas lembranças legais de coisas que vivi, mas a minha realidade agora é aqui, tocando a minha vida. Meu TFG não vai se escrever sozinho.

Dizem que o motivo de a gente ter certo apego às coisas passadas é porque as partes boas se sobressaem em nossa memória. Exemplo: quando a gente pensa que ser criança era muito melhor do que a vida de gente grande, só estamos lembrando da parte de não ter responsabilidades, assistir desenho animado e tomar danoninho todo dia. Mas tinha muita coisa chata também. Tinha que comer tudo o que estava no prato. Dever de casa todos os dias. Hora de ir pra cama. “Criança não tem querer”. Não pode sair de casa desacompanhada(o). Zero liberdade de escolha.

A mesma coisa acontece comigo em relação ao intercâmbio. Abro minha pasta de fotos e me vejo chique, com uma echarpe enrolada no pescoço, em Londres, ou aventureira, montada em um camelo, no meio do deserto, ou bronzeada e com a cara gorda de comer tanta massa, em alguma cidade na Itália. É disso que eu me lembro. E da caixa de 9 doughnuts da Marks & Spencer, que eu comia inteira, sozinha.

Não tenho fotos das intermináveis tardes que passei entediada, com a cara no laptop, enfiada dentro do edredon, vestindo uma calça bem grossa, casaco e meias, e, ainda assim, sentindo muito frio, pois não tinha o direito de ligar o aquecedor do quarto na maior parte do tempo. Ou de quando eu, que sou uma pessoa “da manhã”, acordava às 7h e estava completamente escuro e, mesmo quando amanhecia, o céu continuava todo fechado e o sol não aparecia nunca. Raramente me lembro do gosto artificial e aguado do suco de laranja, que tinha que ser de caixa, porque comprar a fruta era muito caro, e da batata doce ruim, sem doce e côr-de-abóbora. E como todas as comidas tinham sabor de sal e cebola, porque comprar tempeiro era muito caro. Ou quando, até depois de 12 meses em terra de língua inglesa, ainda tinha que ter o trabalho de pensar no que falar, já que não saía tudo naturalmente, como a minha língua-mãe.

Do mesmo jeito, imagino que quando estiver formada e empregada, provavelmente vou sentir falta da vida de universitária. Vou olhar pra trás e pensar em como era feliz em qualquer boteco nas noites de sexta, como era bom não ter que pagar aluguel nem conta de luz, vou lembrar das festas aleatórias e gratuitas na universidade, de pegar matérias com meus amigos e de induzir ou praticar falsidade ideológica na assinatura da lista de presença das aulas mais chatas. Nada de pressão de chefe, prazos ou metas. Mas isso é o que vou lembrar no futuro.

Agora, vivo também as partes ruins. A agonia de não ter nada de concreto conquistado ainda, nem mesmo um pedaço de papel dizendo que estou apta a praticar a profissão. Afinal, 70 por cento do curso ainda é “segundo grau completo”. E o desespero de ver o mercado de engenharia desgastado e incerto. Será mesmo que vou arrumar um emprego? E as noites intermináveis tentando dar conta de tanto conteúdo acumulado, me esforçando para não atrasar ainda mais a minha formatura. Pior que tudo isso: e a GREVE?

Mas isso é agora. Amanhã olharei pra trás e verei uma Lenita que tem tempo para ir à praia, tomar água de côco na praça, sair com amigos e escrever suas divagações diárias. Que teve a oportunidade de estudar um ano fora, morar sozinha e fazer viagens legais. Que não tomava conhecimento dos problemas financeiros da família, nem precisava fazer seu próprio pão com manteiga e leite com nescau, bastava dizer que estava com fome e esperar, enquanto assistia as Três Espiãs Demais. Aconteça o que acontecer, o ontem de amanhã terá sido maravilhoso.

A Lenita de 2013.
A Lenita de 2013.
Saudades, ser Chique.