Dois domingos, o mesmo filme.

   No dia 10 de abril de 2016, em um domingo, assisti a um filme chamado A Royal Affair (2012). A trama se passa na Dinamarca do século 18, na época do iluminismo, e conta a história de uma jovem rainha que viaja especialmente para casar-se com um rei mentalmente perturbado e que precisa da assistência de um médico para lidar com suas crises de loucura. Depois de passar muita raiva nas mãos do péssimo marido que lhe foi arranjado, a mulher acaba se apaixonando pelo tal médico e os dois tem um caso. Acontece que o médico partilha dos ideais iluministas e é um bravo defensor de Russeau e cia, e se aproveita da situação para colocar suas idéias em prática. Uma das coisas que mais gostei do filme é que o foco não se prende ao romance proibido entre os dois, mas sim na época na qual a história está contextualizada. Fica explícita a realidade do povo e a vida precária que levavam. Mesmo diante de toda a riqueza do reino, a maioria da população vivia com recursos limitados. Os camponeses trabalhavam exaustivamente e pagavam altos impostos. Em contrapartida, a nobreza e os governantes vivam em meio ao luxo. O povo não tinha voz para defender seus direitos. Houve um momento no qual se falou em cortes de gastos com os nobres, para que fossem feitos investimentos em vacinas contra a rubéola (ou outra doença), e a proposta foi totalmente rechaçada e arquivada pelos que compunham a mesa de decisões. Outras situações semelhantes acontecem no decorrer da história. Como disse, o foco não é bem o Affair que dá nome ao filme.

   Assisti ao filme pelo Netflix, sentada no sofá aqui de casa, mergulhada naquela depressão de final de domingo. Quando terminou tudo, enquanto os créditos rolavam tela acima, eu pensava no quão sortudos nós, que vivemos no século 21, somos. Imagina ter nascido numa época daquelas, onde se trabalhava tanto e se ganhava tão pouco. Onde boa parte do que se produzia era direcionado para bancar os luxos de uma minoria. Imagina viver em um cenário imundo, sem saneamento básico apropriado, dependendo de um sistema de saúde precário, quando existente, e não ter meios de lutar pelos seus direitos. Imagina.

   Sete dias se passaram e no domingo seguinte me sentei novamente no sofá e fui assistir a outro filme. Dessa vez, a trama se passava no século 21 mesmo, mais precisamente no ano de 2016, atualíssimo. Nesse filme, estrelavam vários deputados, representando os governantes e a nobreza da época atual. Esses nobres senhores detinham o poder de falar e decidir pelo povo, mesmo que apenas uma pequena minoria deles tenha recebido votos suficientes para desempenharem tal papel. Dos 513 deputados aos quais assisti e ouvi pacientemente naquela noite de domingo, apenas 36 haviam sido eleitos diretamente por meio de votos de eleitores. Antes de assistir a esse “filme”, confesso que não fazia idéia da assombrosa quantidade de deputados aos quais sustentamos com nossos impostos. Imaginava algo em torno de 100. Errei feio. Na obra real, não cinematográfica, à qual assisti no domingo passado, os governantes que iam ao microfone para defender o direito de suas esposas, filhos e netos (apenas), custavam ao povo um valor anual médio de 2 milhões de realidades. Dois. Milhões. CADA.

   Dessa vez não foi preciso esperar rolarem os créditos para começar a refletir sobre a situação toda. Esse é o nosso presente. O nosso momento histórico é de desigualdade e injustiças sociais brutais. Na nossa época, as pessoas também morrem na fila dos hospitais, também lhes é negado o direito à saúde, à segurança e à educação. O nosso governo é um circo, no qual corruptos discursam contra a corrupção enquanto que os palhaços, aos quais também chamo de vizinhos, gritam IMPEACHMENT pela janela e soltam fogos de artifício (!!!), em comemoração à uma tentativa de anulação de uma decisão popular e democrática. A presidente que foi eleita pela maioria da população de modo honesto, está prestes a ser deposta do poder por conta de…Por causa de…Porque sim.

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A Royal Affair (2012)

 

 

 

 

 

 

 

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Dois domingos, o mesmo filme.

Hotline Bling

Drake está inconsolável. Sua ex namorada está vivendo a vida independentemente dele e isso o incomoda profundamente.

A música é uma constante queixa, um lamento de corno que não tem fim. A reclamação gira em torno do fato de que ela está ficando “falada”, as pessoas andam comentando e isso deixa Drake estressado, mesmo sabendo que o relacionamento entre eles está acabado. Ele insiste em repetir que ela está agindo como outra pessoa. Tudo o que ele quer é que ela volte a ser como antes. Hmm, sei não, mas acho que essa não é uma boa opção para a garota em questão. Vamos analisar os fatos:

Fulana esteve presa a um relacionamento por algum tempo. Costumava ser uma boa menina e ficar em casa, mas não mais. Depois de ter terminado com Drake, seu posicionamento mudou completamente. Agora ela usa roupas curtas e sai muito. Fez novas amizades, sai para dançar e bebe champanhe. Ao ver tudo isso, o pobre ex alega que ela está indo a locais onde não se encaixa e, pasmem, saindo com amigas que ele não conhece.

Suas preocupações também giram em torno do fato de ela estar “solteira, sim. Sozinha, nunca.” Avemaria, isso tira o sono do cara. Ele imagina o que ela faz com os paqueras. Se pergunta se ela anda aprontando muito, fazendo as coisas que ele ensinou para ela. Vejam: eles não possuem mais envolvimento algum, mas ainda assim ele não consegue admitir tal situação. Drake, faça-me uma garapa.

A primeira vez que ouvi essa música, fiquei pensando na cara de pau do eu lírico, em chegar para a menina e falar coisas do tipo “ei, eu estou desconfortável com o modo como você está aproveitando a vida sem mim, tendo casos e saindo com gente que eu não conheço, então pare com isso e volte a ser uma boa menina, Ok? Obrigada.” E aí a cada vez que ia entendendo as outras partes, ia ficando mais p da vida ainda.

Hotline Bling é uma ilustração de uma situação bem comum em relacionamentos. O cara se considera “dono” da namorada, paquera, peguete, etc, e simplesmente continua apegado ao sentimento de posse, ainda que não exista mais nenhum tipo de comprometimento entre as partes. Qualquer pessoa que tenha a cabeça mais ou menos organizada consegue compreender que a situação toda é ridícula. Mas quem nunca ouviu algum relato de coisas desse tipo?

A minha opinião é que a moça da música deve continuar bem felizinha, vivendo longe desse cara tão chato, que a julga e que se mete em sua vida sem ter sido convidado. Quem precisa mudar é ele, que não consegue desapegar do que não lhe pertence. Fica a dica: é inútil forçar a barra. Se permanecemos em um relacionamento, é por vontade própria. Ninguém nunca lhe pertencerá. Não há nada que você faça ou deixe de fazer, que vá garantir o seu direito sobre alguém. Isso vale até para o Drake.

Hotline Bling

Meu Partido é um Coração Partido

Eu sei lá o que está acontecendo nesse país. Estou no aguardo de quem me explique. Todos os dias eu chego tarde da faculdade e já vejo minha mãe pular do sofá pra vir me dizer o que aconteceu com o Lula, o Cunha, o Delcídio & cia. Nem sei mais quem é quem. Ouço os nomes sendo citados no finalzinho de jornal, enquanto estou na cozinha passando manteiga em um pão para comer, depois de um dia inteiro fora de casa, a mão tremendo de fome. Enquanto me movimento entre a geladeira e o fogão, ela vem me seguindo, contando as ultimas novidades, e são tantas que já desisti de acompanhar. Na terça ouvi algo sobre Lula ministro. Doideira, pensei. Achei que fosse história, mas era verdade.

E aí tem um juiz que já virou estampa de camisa de protesto. “Ele vai botar o Lula na cadeia”. Passo pela sala com meu sanduíche na mão e vejo na tv a exibição de uma conversa telefônica da presidente. “Ué, e pode?”. Situações extremas, medidas extremas. Todos vestidos de preto em um dia, no outro todos de vermelho. E eu estou de cinza, de verde musgo, a qual grupo pertenço?

Estou entre os desiludidos. Meus vizinhos batem panelas e gritam “fora PT”. Quero ir às ruas, mas não me contento com a saída de um grupo do poder. O que queremos mudar realmente? Me recuso a marchar ao lado de quem deseja o impeachment. É pensar pequeno, de nada adianta. O jornal parcial entra pelo horário da novela e eu, cansada, vou me deitar. Meus pais vão de um noticiário a outro. Ainda se empenham em compreender nossa situação. Aqui em casa todos votaram no PT. Sem adesivos no carro, não esperávamos grandes coisas, mas foi, ao nosso ver, a opção menos pior no segundo turno.

Permaneço sentada em cima do muro. À minha direita, um grupo que exige a punição e exclusão de alguns corruptos, enquanto aplaude outros tantos. À minha esquerda, um grupo que insiste em defender o indefensável.
Vejo meus amigos espumando de raiva, detrás das publicações agressivas do facebook. Entre uma publicação política e outra, as manchetes do Sensacionalista me levam às gargalhadas.

Nos tempos do colégio, sempre pensava em que droga de época que eu tinha nascido. Imaginava que os anos em que vivi seriam “pulados” nos assuntos dos livros de historia do futuro, pois não haveria nada muito significativo. De acordo com a realidade atual, acredito que não terei do que me queixar. Esperarei curiosa e ansiosamente para ver como os historiadores vão explicar essa bagunça para os adolescentes daqui a 40 anos.

Meu Partido é um Coração Partido

Calor hein?

Começou a época do ano na qual não se pode passar 30 minutos seguidos sem que alguém reclame do calor. De fato, está quente, mas é bem melhor assim do que chovendo toda hora, alagando rua, deslizando morro, caindo casa, etc. Sim, porque período de chuva aqui em salvador é bem assim. Mas quando as pessoas reclamam e eu digo que é melhor no verão quente do que no inverno, sou ameaçada de morte.

As vezes eu to tranquila, na minha, e aí alguém chega pra mim e reclama do calor, como se eu ou qualquer outra pessoa pudesse resolver esse problemão. Então eu paro e penso se concordo ou não com o que a pessoa disse. E aí eu começo a sentir que, realmente, está muito quente. Sinto que o cabelo já tá ficando meio úmido na nuca, percebo que a minha pele está peguenta e a blusa grudando nas costas e debaixo do sovaco. Então eu fico incomodada também e tenho que conviver com isso pelo resto do dia. Pior do que o calor em si, é ouvir as pessoas reclamando do calor o tempo todo.

A boa notícia do ano é que mainha trouxe para mim e minha irmã o presente mais maravilhoso da vida: uma rede para colocar na varanda. Nem preciso dizer que esse é o meu novo lugar preferido da casa. Ontem e hoje eu passei boas horas nesse programa de índio. Enquanto no meu quarto eu mal consigo tirar uma soneca ou deitar na cama para ler um livro, de tão quente e claro que está o ambiente, aqui na varanda, enquanto vos escrevo, sinto frio nas pernas. FRIO. Nunca mais saio daqui.

Aproveitando para fazer aqui um balanço do ano de 2015:

– Ponto baixo do ano: A faculdade.
– Ponto alto do ano: Rede na varanda.

Podemos concluir que 2015 deixou um pouco a desejar.

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Amor ❤
Calor hein?

Não Leia os Comentários

Há alguns hábitos em minha vida dos quais preciso me livrar. São aqueles que costumo identificar como de “auto-sabotagem”. Um hábito de auto-sabotagem é aquele que a gente pratica já sabendo que isso trará um mal estar desnecessário, mas por isso mesmo não conseguimos evitar. É como ouvir uma música deprê quando já se está na fossa. Dá vontade de cavar mais ainda. Como coçar uma perebinha, ou puxar pele descascada do sol.

É como ler os comentários de qualquer vídeo ou texto de conteúdos considerados polêmicos. A mão treme descendo a barra de rolagem após o fim do texto. Não leia, não leia. Na teimosia, acabo lendo. O resultado é um misto de decepção com a humanidade e vontade de responder com textão. Me coço, me ajeito, fico toda inquieta. Quando passa, juro para mim mesma que dali em diante me manterei longe dos comentários.

Hoje eu tava lendo um texto de uma colunista que amo sobre a separação que a sociedade faz entre o que é de menina e de menino, em coisas que não fazem o menor sentido, como, por exemplo, na cor dos cabides do quarto da criança. Ela começa a relatar que quando era criança, ganhou da mãe um carrinho de controle remoto e achou o máximo. Nem por isso ela perdeu a feminilidade dela, tampouco foi afetada a sua sexualidade. Ela, então, pergunta porque que as pessoas gastam tanto tempo se empenhando em ferver mamadeiras e comprar fraldas de qualidade, mas não se preocupam em fazer dos seus filhos pessoas mais livres e menos ligadas em rótulos.

Achei o texto ótimo e concordei com tudo o que li. Aí desci pra dar uma olhada nos comentários e me deparei com a opinião de um maluco que condena a escritora de ser uma julgadora dos costumes da humanidade e contra a “natural” distinção de gênero. OI? A mulher não pode nem optar por comprar cabides azuis para a sobrinha mais. Até reli a publicação, mas não encontrei nada que pudesse embasar a revolta do comentário. Quase que pergunto “Cara, c leu mesmo o texto?”. Mas que tipo de resultado podemos conseguir de uma discussão com alguém com sérios problemas de interpretação de texto?

Há casos muito piores. Experimenta ler os comentários de alguma publicação que fale sobre machismo. É de matar um do coração. Nada de bom vem do hábito de ler os comentários. É um gasto de energia mal empregado. Leia a publicação, concorde ou discorde, feche a página e siga com sua vida em paz.

Tá aqui o texto da Ruth sobre os cabides. Não leia os comentários.

Não Leia os Comentários

Preguiça Repentina

Se – Deus me livre e guarde – acontecesse um crime em minha casa, eu tenho certeza que a investigação ia concluir tudo errado. Eles poderiam, por exemplo, chegar aqui e olhar para o cenário da sala e dizerem que no exato momento em que o crime ocorreu eu tinha acabado de vir da varanda, onde fica o varal de chão e estava dobrando roupas, visto que o sofá estava tomado por roupas recém-lavadas, sendo que metade delas estava dobrada e a outra metade não. Essa seria uma conclusão muito errada. Eu poderia, simplesmente, ter começado a dobrar as roupas dois dias antes e, então, ter tido uma preguiça repentina, e aí ter parado para tomar  nescau e ouvir umas músicas, deixando o restante da tarefa para a tarde do dia seguinte. Esse tipo de coisa acontece comigo.

No primeiro sábado do mês, eu decidi que iria fazer uma limpa total no meu quarto, com o objetivo de montar um novo esquema de organização mais funcional e limpo. Limpo no sentido de menos entulhado, ou seja, o objetivo era jogar muita coisa no lixo. E foi o que fiz. No período de duas semanas. Simplesmente tirei tudo o que estava intocado em guarda-roupas, gavetas, caixas e prateleiras, joguei tudo no chão e então comecei a descartar tudo o que já não fazia sentido em minha vida, ou que poderia estar sendo melhor aproveitado por outra pessoa, e então separei para doar/descartar. Comecei a tarefa de manhã, e depois do almoço já havia postado uma foto no snap declarando que aquela tinha sido a minha pior ideia de 2015 e desistindo da empreitada. No dia seguinte não movi uma palha dentro do meu quarto e, durante sete dias tive que me movimentar pelo quarto escalando pequenas duninhas de roupas sujas, livros, bolsas e sapatos.

Como a vida sempre se encarrega de balancear nossos piores defeitos com virtudes complementares, minhas preguiças são alternadas com momentos de picos de produtividade. Ás vezes estou fazendo alguma coisa banal, tipo assistir série ou ~escrever~, e aí me levanto para buscar um copo de água. Aí vejo que a jarra está quase vazia, aí lavo a jarra, encho e coloco de volta na geladeira. Então percebo que tem uma vasilha lá dentro com comida velha, aí tiro a vasilha de lá e vejo logo se tem mais coisa estragada pra jogar no lixo. Então lavo as prateleiras e a bandeja dos ovos. Encho os cubinhos de gelo. Troco os sacos do lixo e pingo Pinho Sol na área para dar um aroma de limpeza. Aí desço para levar o lixo de casa até a lixeirona do prédio, e na volta já pego as correspondências na caixa do correio…

É por conta disso que hoje estou sentada em um ambiente limpo e propício ao bem estar, rodeada apenas de coisas que me trazem felicidade (ex: uma ampulheta, um camelo de madeira, um bonequinho mijando), dispostas em locais adequados aos seus níveis de utilização no meu dia-a-dia. O quarto me parece até mais quieto e vazio, sem todas as aranhas, suas teias e os pequenos insetos que conviveram comigo pelas últimas semanas ou meses.

O importante é que o saldo final da preguiça-produtividade geralmente fica em torno de zero. Ou seja, o que tem de ser feito acaba sendo feito. Seu desenvolvimento se dá por etapas, às vezes com intervalos de cinco dias úteis, mas, no fim das contas, as tarefas são concluídas. Se houver a necessidade de dar uma pausa na varrida da casa para fazer uns colares ou olhar o movimento da rua, que assim seja. Se estiver no meio de uma conversa no whatsapp e precisar tirar uma soneca, paciência. Cada um que gerencie suas atividades a seu modo. Prioridades, gente. Hora de voltar para o que quer que eu tenha deixado pela metade.

Preguiça Repentina

A Professora de Inglês

No meu último ano do colégio, tive uma professora de inglês que era lésbica. Ela já era coroa, mais de 50 anos com certeza, e eu me perguntava se ela não era velha demais para aquilo. Ela sempre usava brinco em apenas uma das orelhas. O complemento do par ficava com a namorada. Todas as aulas ela reclamava de como as salas daquele colégio eram tão cheias, achava absurdo uma turma ter 65 alunos. Falava de como as coisas tinham mudado para pior, de como aquilo estava virando algo tão voltado para o lucro.

D. tinha um método diferenciado de dar aula. Dizia que ao final do curso ia mostrar que todos sabíamos mil palavras em inglês, e que, conhecendo essas palavras, passaríamos no vestibular. Eu ficava um tanto agoniada durante suas aulas. Queria algo mais direcionado, mais focado no formato da prova que nos aguardava no fim do ano. Os demais professores nos ensinavam a decorar fórmulas, fatos e nomes de grupos de plantas. Não estávamos aprendendo nada para a vida, não dava pra perder o foco. Mas D. tinha seus métodos esquisitos e isso me irritava um pouco.

Em uma de suas aulas, ela nos fez traduzir um texto de uma revista que falava sobre um filme com Kate Winslet, The Reader. Lembro que estava com muito sono, morrendo de tédio, e a todo tempo me perguntando como faria para sair discretamente daquela aula e ir para a biblioteca praticar umas questões de matemática. Ela insistia em nos recomendar filmes e livros. Eu não queria saber, eu não queria nada que me distraísse. Mais tarde, já matriculada no curso de Elétrica na Ufba, nos dias em que aguardava o início das aulas, assisti The Reader e chorei no sofá da sala, com o laptop no colo. Um dos melhores filmes que já vi na vida.

Até os dezessete, nunca tinha sido fã de nenhum artista. Nunca tinha ouvido um CD até “furar”, ou procurado saber tudo sobre a vida de alguém no google. Até que, no meio da tarde, D. apagou todas as luzes da sala de aula e colocou no projetor o clipe de Rehab. Alguns aproveitaram para tirar uma sonequinha – as aulas de inglês aconteciam após o almoço. Eu fiquei encantada, chocada, apaixonada pela mulher tatuada e de delineador gatinho, que cantava com um vozeirão maravilhoso, no meio dos integrantes de sua banda, formada exclusivamente por negros, todos vestidos em pijamas e roupões, espalhados pela casa, sentados na cama, na privada e no chão do banheiro. Anos depois, lá estava eu, no sofá da sala, chorando novamente, ao assistir ao noticiário da morte de Amy Winehouse.

Ela não foi das minhas professoras favoritas. Faltei muitas de suas aulas para estudar outras matérias que considerava mais importantes. Os meus módulos de inglês eram os mais limpos e conservados pois eram pouco utilizados, mal os tirava do armário. Não sei porque, hoje, enquanto mandava para meu pai uma mensagem de felicitações pelo dia do professor, lembrei dela. A professora que gastava tempo. Que ensinava as coisas ao seu modo. Que indicava filmes e livros. Que era fã de Amy e Virgínia Woolf. Qual era o escritor preferido do professor de física? Sei lá. O que o professor de química pensava da vida? No idea. Não sei se ela ainda dá aulas de inglês, se ainda mora no Brasil ou por onde anda. Sei que hoje, do nada, me lembrei de D. a professora doida que nos ensinou “mil palavras da língua inglesa” e outras coisas mais.

A Professora de Inglês