Preguiça Repentina

Se – Deus me livre e guarde – acontecesse um crime em minha casa, eu tenho certeza que a investigação ia concluir tudo errado. Eles poderiam, por exemplo, chegar aqui e olhar para o cenário da sala e dizerem que no exato momento em que o crime ocorreu eu tinha acabado de vir da varanda, onde fica o varal de chão e estava dobrando roupas, visto que o sofá estava tomado por roupas recém-lavadas, sendo que metade delas estava dobrada e a outra metade não. Essa seria uma conclusão muito errada. Eu poderia, simplesmente, ter começado a dobrar as roupas dois dias antes e, então, ter tido uma preguiça repentina, e aí ter parado para tomar  nescau e ouvir umas músicas, deixando o restante da tarefa para a tarde do dia seguinte. Esse tipo de coisa acontece comigo.

No primeiro sábado do mês, eu decidi que iria fazer uma limpa total no meu quarto, com o objetivo de montar um novo esquema de organização mais funcional e limpo. Limpo no sentido de menos entulhado, ou seja, o objetivo era jogar muita coisa no lixo. E foi o que fiz. No período de duas semanas. Simplesmente tirei tudo o que estava intocado em guarda-roupas, gavetas, caixas e prateleiras, joguei tudo no chão e então comecei a descartar tudo o que já não fazia sentido em minha vida, ou que poderia estar sendo melhor aproveitado por outra pessoa, e então separei para doar/descartar. Comecei a tarefa de manhã, e depois do almoço já havia postado uma foto no snap declarando que aquela tinha sido a minha pior ideia de 2015 e desistindo da empreitada. No dia seguinte não movi uma palha dentro do meu quarto e, durante sete dias tive que me movimentar pelo quarto escalando pequenas duninhas de roupas sujas, livros, bolsas e sapatos.

Como a vida sempre se encarrega de balancear nossos piores defeitos com virtudes complementares, minhas preguiças são alternadas com momentos de picos de produtividade. Ás vezes estou fazendo alguma coisa banal, tipo assistir série ou ~escrever~, e aí me levanto para buscar um copo de água. Aí vejo que a jarra está quase vazia, aí lavo a jarra, encho e coloco de volta na geladeira. Então percebo que tem uma vasilha lá dentro com comida velha, aí tiro a vasilha de lá e vejo logo se tem mais coisa estragada pra jogar no lixo. Então lavo as prateleiras e a bandeja dos ovos. Encho os cubinhos de gelo. Troco os sacos do lixo e pingo Pinho Sol na área para dar um aroma de limpeza. Aí desço para levar o lixo de casa até a lixeirona do prédio, e na volta já pego as correspondências na caixa do correio…

É por conta disso que hoje estou sentada em um ambiente limpo e propício ao bem estar, rodeada apenas de coisas que me trazem felicidade (ex: uma ampulheta, um camelo de madeira, um bonequinho mijando), dispostas em locais adequados aos seus níveis de utilização no meu dia-a-dia. O quarto me parece até mais quieto e vazio, sem todas as aranhas, suas teias e os pequenos insetos que conviveram comigo pelas últimas semanas ou meses.

O importante é que o saldo final da preguiça-produtividade geralmente fica em torno de zero. Ou seja, o que tem de ser feito acaba sendo feito. Seu desenvolvimento se dá por etapas, às vezes com intervalos de cinco dias úteis, mas, no fim das contas, as tarefas são concluídas. Se houver a necessidade de dar uma pausa na varrida da casa para fazer uns colares ou olhar o movimento da rua, que assim seja. Se estiver no meio de uma conversa no whatsapp e precisar tirar uma soneca, paciência. Cada um que gerencie suas atividades a seu modo. Prioridades, gente. Hora de voltar para o que quer que eu tenha deixado pela metade.

Anúncios
Preguiça Repentina

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s