Observadores de Praia

O ponto de ônibus do Porto da Barra é abrigado e tem assentos, mas está vazio. São 16h da tarde e umas quinze pessoas esperam por um ônibus. Apenas três estão sentadas, na sombra, onde há lugares vagos que ninguém parece querer ocupar. Já é verão em Salvador. A cidade começa a ficar quente, o sol brilha forte o dia todo e as núvens desapareceram. O mar calmo e claro convida a um mergulho e a praia está cheia. Todos estão debruçados na mureta, olhando o movimento lá em baixo.

A areia está tomada de gente. Cada um no seu pedacinho de canga. E eu lá em cima, suando e babando de inveja, de calça jeans, blusa preta e sapatilha, do estágio diretamente para a Barra. Ao meu lado, um homem vestindo um macacão azul e botas. Deve estar com mais calor que eu. O menino que está do meu outro lado nem pisca, de olho em duas meninas que estão estiradas, se bronzeando. De vez em quando, ele vira a cabeça, só para conferir se o ônibus que está passando não é o seu, então volta a observar as garotas. Olho na praia, olho no ônibus. Todos ali seguem esse ritual. Menos eu, que estou apenas esperando uns amigos. Combinamos de tirar a tarde para ficar “pela Barra”.

Duas gordinhas, ambas lá pela casa dos quarenta, tomam cerveja Schin no canudinho e riem tão alto que fico com vontade de participar da conversa. Elas também usam calças, mas parecem relaxadas e felizes. É uma tarde de sexta-feira, todo o trabalho da semana já foi feito. Um homem encerra sua corrida e se junta a nós, observadores de praia. Estica uma perna, depois a outra. Se alonga sem desviar os olhos da água. Li uma vez que esse fascínio do ser humano pelo mar, nada mais é do que “memória genética”. Acho que faz sentido.

Um casal com cara de turistas para em frente ao carrinho de água de coco e espera. Onde estaria o vendedor? Não demora muito e ele aparece. Adolescente, boné “pala reta” no topo da cabeça. Estava ali, do ladinho, observando também. Me lembro de quando a orla estava passando por uma grande reforma e vivia cheia de pedreiros, que se revezavam na observação. Era até engraçado olhar lá da areia e ver os capacetezinhos azuis enfileirados, voltados para a praia. Deve ser difícil ser produtivo com uma vista dessas.

E quem estaria me cobrando alguma produtividade? Não estou esperando ônibus, não estou vendendo coco, nem me exercitando ou tomando uma cervejinha de final de expediente. Estou pela Barra, observando. Só isso.

Praia do Porto, Salvador.
Praia do Porto da Barra, Salvador.
Anúncios
Observadores de Praia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s