Saudades, ser Chique.

Ontem fui à despedida de uma amiga que está indo passar um ano em Liverpool. Falamos sobre a chegada na Inglaterra, as acomodações, as viagens que ela vai fazer, e aí começou a bater aquela saudadezona do intercâmbio. Mas é uma saudade boa, de saber que eu tenho tantas lembranças legais de coisas que vivi, mas a minha realidade agora é aqui, tocando a minha vida. Meu TFG não vai se escrever sozinho.

Dizem que o motivo de a gente ter certo apego às coisas passadas é porque as partes boas se sobressaem em nossa memória. Exemplo: quando a gente pensa que ser criança era muito melhor do que a vida de gente grande, só estamos lembrando da parte de não ter responsabilidades, assistir desenho animado e tomar danoninho todo dia. Mas tinha muita coisa chata também. Tinha que comer tudo o que estava no prato. Dever de casa todos os dias. Hora de ir pra cama. “Criança não tem querer”. Não pode sair de casa desacompanhada(o). Zero liberdade de escolha.

A mesma coisa acontece comigo em relação ao intercâmbio. Abro minha pasta de fotos e me vejo chique, com uma echarpe enrolada no pescoço, em Londres, ou aventureira, montada em um camelo, no meio do deserto, ou bronzeada e com a cara gorda de comer tanta massa, em alguma cidade na Itália. É disso que eu me lembro. E da caixa de 9 doughnuts da Marks & Spencer, que eu comia inteira, sozinha.

Não tenho fotos das intermináveis tardes que passei entediada, com a cara no laptop, enfiada dentro do edredon, vestindo uma calça bem grossa, casaco e meias, e, ainda assim, sentindo muito frio, pois não tinha o direito de ligar o aquecedor do quarto na maior parte do tempo. Ou de quando eu, que sou uma pessoa “da manhã”, acordava às 7h e estava completamente escuro e, mesmo quando amanhecia, o céu continuava todo fechado e o sol não aparecia nunca. Raramente me lembro do gosto artificial e aguado do suco de laranja, que tinha que ser de caixa, porque comprar a fruta era muito caro, e da batata doce ruim, sem doce e côr-de-abóbora. E como todas as comidas tinham sabor de sal e cebola, porque comprar tempeiro era muito caro. Ou quando, até depois de 12 meses em terra de língua inglesa, ainda tinha que ter o trabalho de pensar no que falar, já que não saía tudo naturalmente, como a minha língua-mãe.

Do mesmo jeito, imagino que quando estiver formada e empregada, provavelmente vou sentir falta da vida de universitária. Vou olhar pra trás e pensar em como era feliz em qualquer boteco nas noites de sexta, como era bom não ter que pagar aluguel nem conta de luz, vou lembrar das festas aleatórias e gratuitas na universidade, de pegar matérias com meus amigos e de induzir ou praticar falsidade ideológica na assinatura da lista de presença das aulas mais chatas. Nada de pressão de chefe, prazos ou metas. Mas isso é o que vou lembrar no futuro.

Agora, vivo também as partes ruins. A agonia de não ter nada de concreto conquistado ainda, nem mesmo um pedaço de papel dizendo que estou apta a praticar a profissão. Afinal, 70 por cento do curso ainda é “segundo grau completo”. E o desespero de ver o mercado de engenharia desgastado e incerto. Será mesmo que vou arrumar um emprego? E as noites intermináveis tentando dar conta de tanto conteúdo acumulado, me esforçando para não atrasar ainda mais a minha formatura. Pior que tudo isso: e a GREVE?

Mas isso é agora. Amanhã olharei pra trás e verei uma Lenita que tem tempo para ir à praia, tomar água de côco na praça, sair com amigos e escrever suas divagações diárias. Que teve a oportunidade de estudar um ano fora, morar sozinha e fazer viagens legais. Que não tomava conhecimento dos problemas financeiros da família, nem precisava fazer seu próprio pão com manteiga e leite com nescau, bastava dizer que estava com fome e esperar, enquanto assistia as Três Espiãs Demais. Aconteça o que acontecer, o ontem de amanhã terá sido maravilhoso.

A Lenita de 2013.
A Lenita de 2013.
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